Citando um grande pensador da antiguidade (Sócrates), somos aquilo que pensamos. Temos possibilidade de reflectir sobre a vida, memorizar e armazenar informação, registar aqueles que nos amam ou que nos amam menos, tecer julgamentos e opiniões sobre os mais váriados temas e no entanto muitas vezes portamos-nos como autênticos animais. Observei à um certo tempo uma cena que me deixou perplexo. Ia de carro com a minha mãe, chegamos a um cruzamento com semáforos, estava vermelho para nós, mas a cair o amarelo para os carros que circulavam na via perpendicular aquela em que me encontrava. Um jovem ao ver o amarelo abranda o carro e pára, metendo mesmo travões, mas garantindo a distância de segurança para o que vinha atrás não bater. Atrás vinha um senhor, com os seus 40 anos, que ao ver o amarelo acelera a fundo, ao se aperceber que o jovem ia parar trava a fundo e começa a buzinar. O rapaz sabiamente ignora esse cavalheiro, que sai do carro completamente desvairado e afinca um murro no jovem, entrando novamente no carro a seguir, arranca, mete-se à frente dum autocarro de passageiros, quase causando um acidente e segue a abrir.
Não querendo tecer julgamentos sobre ninguém, apenas noto que à primeira vista este senhor portou-se como um animal, agindo por instinto e não reflectindo nos seus actos.
Este tipo de casos, apesar de parecerem sem consequências de maior envergadura para a sociedade demonstram duas coisas. A primeira é que algo está muito mal na nossa forma de pensar, a segunda é que sendo o senhor membro da sociedade, é também fruto da influência que essasociedade lhe imprimiu, e pela qual todos nós, membros activos ou passivos da sociedade, temos uma responsabilidade.
Na nossa senda diária influenciamos e somos influenciados pelos que nos rodeiam, seja a pessoa que sesenta ao nosso lado no transporte público, seja o colega de trabalho, ou até o automobilista que vai à nossa frente. Vivemos numa sociedade em que interagimos, quer queiremos ou não, com os que nos rodeiam. A influência que imprimos aos outros é resultado directo da nossa forma de pensar, das nossas opiniões pessoais sobre a vida, da nossa postura mental ante os problemas que a vida nos apresenta, etc etc. E nesse jogo de influênciação podemos ter um papel construtivo ou destrutivo.
Pegando no exemplo da discussão entre o mute e o Zalkier, segundo o mute, as várias pessoas na rua dele compraram uma PS2 porque os vizinhos também tinham essa máquina, logo essas pessoas foram influenciadas pelas que já tinham a PS2, ainda que estas não tenham dito nada para influênciar. Ainda segundo o mute, as pessoas foram a correr comprar a mesma PS2 por causa do historial de sucesso da PSx, mais uma vez observa-se uma influência.
Falando agora de coisas mais sérias. Tenho um irmão pequeno, fumo e gosto de fumar. Vou demonstrar prazer quando fumar e o meu irmão verá isso. Mesmo que eu lhe diga sempre para não fumar, ou não diga nada, se ele um dia fumar eu terei parte da responsabilidade por esse facto, se não fumar, nenhum mérito terei. Este exemplo, inventado, serve para demonstrar que pelas atitudes que tomamos e pelas coisas que dizemos, vamos ser responsaveis pelos actos que os outros cometerem (positivos ou negativos) em virtude daquilo que viram em nós ou que nos ouviram dizer.
Ainda nesta questão de influenciarmos e sermos influenciados, se somos forçados a conviver com os outros, então poderemos ver que papel iremos ter no meio que nos rodeia, agindo de forma a transformar para melhor os que nos rodeiam, para que esses também transformem aqueles que os rodeiam e dessa forma, pouco a pouco, possamos ir transformando a nossa sociedade, a sociedade onde somos convidados diariamente a viver, e perante a qual temos um papel de responsabilidade quer o queiramos ou não.